Segunda-feira, Março 26, 2007


A balada de Sir Fabiano

Por favor, perdoem-me a ausência e também por por comunicá-la assim, retroativamente. O caso é que tirei as últimas duas semanas de folga do trabalho, devidamente descontadas como minhas férias anuais. Sim, sim, eu tenho direito a férias, por mais que às vezes todas as evidências pareçam contrariar o fato de eu ter carteira assinada - e me fazer esquecer dele.

Foi uma folga anunciada, recomendada por minha médica e por isso mesmo muito bem-vinda. Mas não fiquei aqui, mofando, nos quinze últimos dias. Pelo contrário. Aproveitei esse tempo para cuidar de uma série de coisas muito necessárias e que, se não fossem organizadas com certa urgência, acabariam me metendo em encrenca.

Há bastante tempo, desenvolvi uma espécie de fobia a bancos, contas e burocracias de qualquer espécie. Evitar bancos e não controlar o valor das próprias contas não é exatamente a maneira mais saudável de se viver num mundo regido pelos juros, o telemarketing e a implacável matemática financeira. Devido a esta dificuldade de enfrentar as coisas práticas do cotidiano, desde que me mudei para São Paulo vinha vivendo um estilo de vida um tanto irresponsável.

Eu precisava, portanto, de um tempo só para mim, em que eu pudesse dispor da calma e do descompromisso necessários para meter a mão nessa caixa suja de contas, dívidas, telefonemas e negociações, certo? Errado. Um tempo só para mim resultaria em muita preguiça, horas intermináveis diante da TV, uma certa dose de turismo urbano, muito relaxamento - e a mais completa procrastinação. Deixado aos meus próprios cuidados, eu jamais teria conseguido a coragem de misturar minhas preciosas "férias" (ora, deixem as aspas, foram só quinze dias) com a desagradável rotina de ir a bancos, ligar para o cartão de crédito e negociar com corretores de imóveis. São os dragões. Os gigantes, se preferirmos puxar o gancho do post anterior. E eles me metem um medo desgraçado.

E como se resolve isso? Perguntem à donzela que costura as feridas do cavaleiro errante no fim do dia. Ela tem um habilidade inédita para empurrá-lo até que ele enfrente o que precisa, para fazer o que não consegue fazer sozinho. É ela que faz com que nosso herói entenda que certos contratempos não são exatamente o fim do mundo, e isto faz toda a diferença.

Nas duas últimas semanas, com a ajuda de uma certa mocinha, resolvi mais problemas pessoais do que nos últimos dois anos. Minhas contas foram, pela primeira vez, colocadas numa planilha do Excel. Enfrentei a dívida do cartão de crédito e descobri que ela é muito menor do que imaginava - e, pela primeira vez em um ano e meio, pude deixar de ver aquele pequeno retângulo de plástico como uma chancela do inferno. Negociei minha dívida de condomínio e agora sei que posso pagá-la. Informei-me sobre a melhor forma de parcelar minha dívida no banco e passei a ver sua administração, mais uma vez, como algo possível. Paguei contas atrasadas, as do mês corrente e - aleluia - até algumas adiantadas. E ainda sobrou tempo para repousar das justas, dos duelos e das batalhas num colo macio e perfumado.

Mil vezes ao longo da vida eu critiquei a idéia de por trás de um grande homem, uma grande mulher. Sempre acreditei que a frase deveria ser reformulada, que o lugar delas era sempre ao nosso lado, nunca atrás, à nossa sombra. Agora entendo e reconheço a sabedoria do adágio. E reformulo outra vez: às vezes, para o bem de um grande homem procrastinador, precisa haver, atrás dele, uma grande mulher - munida de um respeitável rolo de macarrão.

F.Schüler [3/26/2007 08:58:19 AM] Comentários:

Quinta-feira, Março 08, 2007


730 dias



Dois anos de São Paulo. Dois anos vivendo dentro do Gigante.

Ele usou esse tempo para pacientemente mastigar, saborear e engolir minha carne. Ele me devorou, um pedaço de cada vez, e agora estou inteiro dentro de sua monstruosa barriga.

E com licença, mas eu ainda planejo dar-lhe uma indigestão dos diabos.

F.Schüler [3/8/2007 11:55:54 AM] Comentários:

Terça-feira, Março 06, 2007


Six degrees of inner turbulence

Consultei a base de dados do CID-10 - a classificação da Organização Mundial de Saúde para diagnósticos. O código que minha médica colocou no meu atestado trouxe o seguinte resultado:


F43.0 - Reação aguda ao "stress"

Transtorno transitório que ocorre em indivíduo que não apresenta nenhum outro transtorno mental manifesto, em seguida a um "stress" físico e/ou psíquico excepcional, e que desaparece habitualmente em algumas horas ou em alguns dias. A ocorrência e a gravidade de uma reação aguda ao "stress" são influenciadas por fatores de vulnerabilidade individuais e pela capacidade do sujeito de fazer face ao traumatismo. A sintomatologia é tipicamente mista e variável e comporta de início um estado de aturdimento caracterizado por um certo estreitamento do campo da consciência e dificuldades de manter a atenção ou de integrar estímulos, e uma desorientação. Este estado pode ser seguido quer por um distanciamento do ambiente (podendo tomar a forma de um estupor dissociativo - ver F44.2) ou de uma agitação com hiperatividade (reação de fuga). O transtorno se acompanha freqüentemente de sintomas neurovegetativos de uma ansiedade de pânico (taquicardia, transpiração, ondas de calor). Os sintomas se manifestam habitualmente nos minutos que seguem a ocorrência do estímulo ou do acontecimento estressante e desaparecem no espaço de dois a três dias (freqüentemente em algumas horas). Pode haver uma amnésia parcial ou completa (F44.0) do episódio. Quando os sintomas persistem, convém considerar uma alteração do diagnóstico (e do tratamento).

Choque psíquico

Estado de crise

Fadiga de combate

Reação aguda à (ao):

· crise

· "stress"



Ordens médicas: férias, 15 dias de afastamento ou simplesmente um emprego numa empresa em que eu me orgulhe de trabalhar e seja tratado com dignidade.

F.Schüler [3/6/2007 02:29:38 PM] Comentários: